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    Teologia da Libertação

    Até aos anos 60 do século XX, a Igreja Católica teve que lidar com os questionamentos intelectuais do ateísmo. A preocupação, no entanto, virava-se agora para a opressão social e econômica vividas pelas pessoas no presente. Muitas dessas vozes da Igreja eram críticas em relação às teologias modernas, afirmando que os teólogos tinham criticado o Cristianismo, numa primeira fase, de um ponto de vista racionalista e iluminista. Era necessário passar-se a uma segunda fase do Iluminismo, a partir dos questionamentos de pensadores como Karl Marx. Pós anos 60, a disciplina teológica era chamada a debater a sociedade e a unir forças com os oprimidos. O tema da libertação da opressão, designada genericamente como Teologia da Libertação, reúne diversas linhas. Três delas destacaram-se como sendo típicas e de maior importância para a história da teologia do século XX: a teologia negra, a teologia da libertação latino-americana e a teologia feminista. As três têm em comum a consideração de que a teologia da transcendência divina não respondia a todas as questões da sociedade contemporânea: não era mais o Ser Transcendente que deveria ser procurado, mas o Ser Imanente, presente nas circunstâncias da vida. (Grenz; Olson, 2003, pp. 239-240)

    Entre os católicos da América Latina, formou-se uma organização regional que incluía os bispos latino-americanos, o Conselho Episcopal Latino-Americano e Caribenho (CELAM). Uma maior liberdade de ação por parte destes religiosos permitiu que se questionasse a missão da Igreja em âmbito continental. Com o advento do Concílio Vaticano II houve um maior impulso para este questionamento. No ano de 1968, em Medellín, na Colômbia, os bispos latino-americanos criticaram o capitalismo e o comunismo, exortando os cristãos a ficar do lado dos trabalhadores rurais e dos indígenas nas suas reivindicações por melhores condições de trabalho e de vida. Entre estes teólogos da libertação estavam os líderes Gustavo Gutiérrez e Juan Luis Segundo, que não pretendiam apenas propor uma teologia que abordasse a libertação, mas sim uma doutrina que considerasse a vida cristã na ótica dos pobres que Deus estava capacitando. O seu objetivo principal foi seguir a crença cristã ortodoxa, mas ao mesmo tempo interpretá-la de um modo novo. Para eles, a interpretação tradicional das Escrituras deixara de observar, ao longo dos tempos, questões fundamentais na vida cristã (González, 2011, p. 552).

    A Teologia da Libertação sofreu, no entanto, uma simplificação por parte da imprensa dos países ocidentais, que a considerava marxista. Essa postura foi reafirmada pelos bispos da Igreja Católica reunidos em Assembleia, em 1978, em Puebla, no México. Daí em diante, ocorreram vários silenciamentos que culminaram no assassinato do arcebispo Oscar A. Romero, em El Salvador. Na Nicarágua, houve um confronto declarado entre o regime sandinista e o episcopado. Na Guatemala e em outros países, centenas de leigos católicos foram assassinados. Na Europa e nos Estados Unidos, a nova teologia foi considerada subversiva e discutia-se quais as implicações das mudanças radicadas no Evangelho (González, 2011, p. 552). No Brasil, a denúncia acesa de problemas estruturais, como a fome, o desemprego, a questão agrária e a repressão dos militares, ocasionou mais perseguições políticas contra os teólogos da libertação. Ao engrossarem fileiras contra o regime militar, provocaram a ira naqueles que consideravam o apoio aos pobres uma subversão. Também a cúpula da Igreja Católica repreendeu vivamente as ações dos religiosos e dos seus fiéis, fazendo reuniões nas Comunidades Eclesiais de Base, onde a experiência religiosa dividiu espaço com a análise crítica da realidade brasileira (Camilo, 2011, pp. 2-3).

    Na década de 70 do século XX, a teologia no Brasil passou por grandes modificações. O regime militar estava no fim e o país iniciava um processo de redemocratização. Nesse mesmo período, o Vaticano procurou apaziguar a situação, pois considerava que os teólogos da libertação não estavam a ser perseguidos pelo regime militar do país. A tentativa de normalizar a situação impôs mecanismos de controle, como indicar bispos conservadores não comprometidos com a questão social para as principais dioceses e postos da igreja brasileira. Com o fim do regime militar, um novo contexto político e religioso abriu a porta para a entrada das religiões pentecostais.  Com as mudanças no mundo a partir da década de 1980, a Teologia da Libertação passou para um novo patamar, com a  crise nos países de regime comunista, o fim das ditaduras militares na América Latina e o início de do papado de João Paulo II (Camilo, 2011, pp. 6-7).

    Embora seja própria da América Latina, a TdL não é exclusiva da América Latina, estando presente em várias partes do mundo. Não é, também, a única teologia libertadora. Existem outras teologias cristãs europeias, asiáticas e africanas com ideários muito semelhantes. Outras teologias libertadoras são a teologia feminista, a teologia negra, a teologia do diálogo inter-religioso e a teologia inculturada. Desse modo, a TdL é a manifestação de um movimento mundial a favor da emancipação humana Na América Latina, todavia, assume uma dimensão de grandes proporções. Em relação aos elementos doutrinários, “o corpo doutrinário teológico foi submetido a um confronto entre a teoria e a prática, entre a realidade e a utopia, entre as ideologias e as propostas evangélicas.” (Gómez, 2008, pp. 26-27). Desse modo, os teólogos da libertação criticaram o sistema capitalista, classificando-o como pernicioso, já que produz a idolatria ao dinheiro, fizeram uma crítica arreigada ao desenvolvimento econômico explosivo, já que em vez de trazer soluções para o desemprego, gerava maior desigualdade social. A crítica ao agrocapitalismo, por exemplo, que forçava as pessoas a saírem do seu ambiente rural e ir para os centros urbanos, fazendo com que os proprietários de terras que antes não tinham patrões passassem à condição de proletários no ambiente urbano, foi tema de debate (Noronha, 2011, p. 186). Para a TdL toda a situação de pobreza atacava o espírito do Evangelho, ofendendo a Deus, conforme afirmam Leonardo Boff e Clovis Boff “A Teologia da Libertação encontrou seu nascedouro na fé confrontada com a injustiça feita aos pobres” (Boff; Boff, 2010, p. 14).

    A principal premissa do Cristianismo é amar a Deus, o que culmina numa pedagogia espiritual e prática, como “amar ao próximo como a si mesmo”. São estes dois elementos que se encontram na Teologia da Libertação, que recupera temas da antiga tradução teológica, renovando os seus sentidos práticos. A Teologia da Libertação (TdL) é uma teologia de carácter encarnacionista, que encontra a maior expressão de fidelidade a Deus na ajuda ao próximo, especialmente aos pobres, aos marginais que vivem esquecidos pela sociedade. Assim, os três principais pressupostos da Teologia da Libertação são: uma interpretação da fé cristã pela via do sofrimento, da luta, da esperança dos pobres; uma crítica à sociedade e às ideologias que sustentam estruturas de divisão e discriminação de seres humanos; uma revisão da ação da Igreja e dos cristãos. (Gómez, 2008, p. 26).

    A proposta teológica procurou um compromisso real e fiel à mensagem de Jesus Cristo. É clara a associação da TdL à figura de Jesus Cristo e às suas ações, com a valorização histórica permanente da sua figura. No início do século XX, recuperou-se o paradigma do reino de Deus como a união entre história e escatologia. Os princípios deste paradigma estavam assentes na leitura histórico-escatológica do cristianismo, “incluindo o primado da práxis para a transformação cristã da história da humanidade” (Gómez, 2008, p. 27); a consciência de uma história que é história de salvação, e que ao mesmo tempo que é transcendente, é imanente, ou seja, conecta-se com a vida real, em outras palavras, a salvação do ser humano não pode dar-se fora do mundo, mas sim dentro do mundo. Desse modo, a figura de Jesus Cristo não só está ligada ao Reino de Deus, como à capacidade de agir como Ele, defendendo os injustiçados, os marginais, os pobres. A mensagem do movimento faz sentido se pensarmos que nasce na periferia da América Latina, uma periferia ativa, engajada socialmente, consciente do descrédito que lhe é atribuído. Em vez e uma prática reformista ou reformadora, a TdL promove a transformação da sociedade (Gómez, 2008, p. 27).

    Dos nomes que protagonizaram a TdL estão Hugo Assman, Frei Betto, Maria Clara Luucchetti Bingemer, Clodovis Boff, Leonardo Boff, Jose Mígez Bonino, Pedro Casaldáliga, Enrique Dussel, Ignacio Ellacuría, Ivone Gebara, Gustavo Gutiérrez, Franz Hinkelammert, María Pilar Aquino, Pablo Richard, Oscar Arnulfo Romero, Samuel Ruiz García, Juan Luis Segundo, Jon Sobrino, Paulo Suess, Elsa Tamez, Ana Maria Tepedino e Aiban Wagua. (Noronha, 2011, p. 185). Leonardo Boff compara a Teologia da Libertação com uma árvore e diz que: “Quem nela vê somente teólogos profissionais vê a galhada da árvore. Não vê ainda o tronco, que é a reflexão dos pastores e demais agentes, e ainda vê todo o tronco o raizante que está por baixo da terra e sustenta a árvore toda: tronco e galhos” (Boff; Boff, 2010, p. 24).

    Para além da Teologia da Libertação, outras vertentes foram exploradas, ao longo dos tempos, tais como a Teologia da Libertação Negra. Criada em 1969 por um grupo de líderes da igreja negra que dirigiram o seu pensamento para avaliar “a situação dos negros à luz da revelação de Deus em Jesus Cristo, de modo que a comunidade negra possa ver que o evangelho é compatível com as realizações da da humanidade negra. A teologia negra é uma teologia de ‘negritude’.” (Declaração…, p. 101, apud Grenz; Olson, 2003, p. 241). A luta contra o racismo da sociedade foi a principal pauta de discussão e de luta, sobretudo contra o racismo branco. Só assim se poderia atingir a verdadeira liberdade. Também os brancos deviam lutar juntos dos negros e falar ‘não’ à opressão branca. Tal como as outras teologias da libertação, esta preconizou o agir e não apenas a contemplação, desse modo foi “uma reflexão em ação na luta pela libertação.” Observa-se uma diferença substancial entre a teologia da libertação negra e a da América-Latina. Esta é formada por pensadores católicos romanos que estudaram na Europa. De algum modo, a teologia da Libertação da América Latina constituía uma reação ao pensamento europeu. A teologia negra, por outro lado, tinha origem no protestantismo norte-americano. Seus líderes foram treinados nos seminários protestantes da América do Norte, envolvidos com as teorias liberalistas.

    O contexto histórico do seu surgimento esteve ligado a acontecimentos de grande impacto mundial, como as ações políticas de Martin Luther King nos anos 60, nos Estados Unidos. Ele foi o porta-voz maior da comunidade religiosa negra, na luta pelos direitos civis. Também Malcom X, uma voz radical em defesa dos direitos dos negros, se destacou. Isso originou extensos tratados sobre a experiência religiosa negra (Grenz; Olson, 2003, pp. 241-242), um deles o do autor Joseph R. Washington Jr., intitulado Black Religion: The Negro and Christianity in the United States (A Religiao Negra: Os Negros e o Cristianismo nos Estados Unidos), de 1964. Nessa obra, Washington confrontou a ideia tradicional de que a religião negra era apenas uma faceta do protestantismo norte-americano, considerando-a como um fenômeno distinto. Washington afirmava que as perdas sócioeconômicas sofridas pelos negros, ao longo do tempo, tinham um preço alto para a dimensão religiosa da vida que levavam. Para ele, as comunidades negras religiosas eram apenas “um símbolo de status da identidade de classe racial”. (Washington, p. 149 apud Grenz; Olson, 2003, p. 243). Em vez de um culto segregado, Washington defendeu a assimilação das comunidades negras nas comunidades brancas cristãs (Grenz; Olson, 2003, p. 244).

    A teologia feminista do final do século XX compartilhou algumas semelhanças com a teologia negra e a teologia da libertação latino-americana. Do mesmo modo, partiu de uma situação social de opressão e das tentativas de libertação do domínio masculino. Se a teologia da libertação era comprometida com a questão social da pobreza, a teologia feminista argumentou que a opressão maior era o machismo, mais especificamente o patriarcado. Dentro do espectro da teologia feminista, observou-se ainda a teologia feminista judia e a não-cristã, que defendia o paganismo na adoração da “Deusa Mãe”.  As ideias preconizadas entre as teólogas feministas cristãs incluíam a crítica à teologia tradicional e patriarcal (feita por homens e para homens), que não validava a experiência das mulheres; a defesa do papel formativo das mulheres na teologia e a experiência das mulheres como norma para a teologia cristã contemporânea. Estes são pontos convergentes no pensamento das teólogas feministas, no entanto, não houve unanimidade sobre o fato de as mulheres deverem continuar dentro das igrejas cristãs tradicionais no intuito de propor reformas internas ou se dissidir e fundar suas Igrejas feministas (Grenz; Olson, 2003, pp. 271-272). Grenz e Olson observaram que, no final do século XX, “o termo ‘teologia feminista cristã’ passou a ser usado quase que exclusivamente para um movimento que busca fazer uma ampla revisão dos fundamentos e crenças teológicas.” (Grenz; Olson, 2003, p. 271).

    Bibliografia

    BOFF, Leonardo; BOFF Clovis, Como fazer teologia da libertação, Petrópolis, Vozes, 2010.

    CAMILO, Rodrigo Augusto Leão. A Teologia da Libertação no Brasil: das formulações iniciais de sua doutrina aos novos desafios da atualidade. Atas do II Seminário de Pesquisa da Faculdade de Ciências Sociais: Diálogos entre Graduação e Pós-Graduação, Goiás, Universidade Federal de Goiânia, 2011, pp. 1-8.

    DECLARAÇÃO FEITA PELO COMITÊ NACIONAL DE LIDERES DE IGREJAS NEGRAS, 13 de junho de 1969, reimpresso em Wilmore e Cone, Black Theology.

    GRENZ, Stanley J.; OLSON, Roger E., A Teologia do século 20. Deus e o mundo numa era de transição, trad. Suzana Klassen, São Paulo, Ed. Cultura Cristã, 2003.

    GÓMEZ, Salustiano Alvarez, A teologia da libertação na América Latina, Cadernos de História. Belo Horizonte, PUC-Minas, pp. 24-46, 2008.

    GONZÁLEZ, Justo L., História Ilustrada do Cristianismo: a Era dos Reformadores até à Era Inconclusa, trad. Itamir Neves de Sousa et al., 2.ª ed, vol. 2, São Paulo, Vida Nova, 2011.

    NORONHA, Cejara Uiana Assis, Teologia da Libertação: origem e desenvolvimento, Fragmentos de Cultura, Goiânia, v. 22, n. 2, p. 185-191, abr./jun. 2012.

    WASHINGTON JR., Joseph R., Black Religion, Boston, Beacon Paperback, 1966.

     

    Autora: Fernanda Santos

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