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    Bocage

    Bocage, Manuel Maria Barbosa du

    Manuel Maria Barbosa du Bocage nasceu em Setúbal, às três da tarde, no dia 15 de setembro de 1765. Filho do bacharel José Luís Soares de Barbosa e de D. Mariana Joaquina Caetana Xavier L’Hedois Lustoff du Bocage, segunda sobrinha da célebre poetisa francesa, Madame Anne-Marie Le Page du Bocage.

    Apesar da existência de várias biografias publicadas após a sua morte, grande parte da sua vida permanece um mistério. Foi autodidata e a sua obra evidencia o seu conhecimento das mitologias grega e latina, bem como dos idiomas francês e latino.

    Quarto filho de uma família burguesa bastante reconhecida em França, teve uma infância infeliz. O pai foi preso quando Bocage tinha 6 anos e a mãe faleceu por volta dos seus 9 anos. Com apenas 16 anos, entrou como voluntário para o Exército e lá permaneceu até setembro de 1783. Após esta data, mudou-se para Lisboa e foi admitido na Escola da Marinha Real, onde se formou em guarda-marinha. Esteve no Brasil, na Índia, em Macau e na China, mas acabou por desertar, regressando a Portugal.  

     

    Contexto histórico

    A figura de Bocage associa-se à fase final do arcadismo (escola literária que surgiu na Europa no século XVIII, em vigor em Portugal entre 1756 e 1825, também denominada de neoclassicismo) e à introdução do Romantismo. O nome “arcadismo” constitui uma referência à Arcádia, região campestre do Peloponeso, na Grécia antiga, tida como ideal de inspiração poética. O Romantismo foi um movimento artístico, político e filosófico surgido nas últimas décadas do século XVIII, que se prolongou na Europa por grande parte do século XIX. Caracterizou-se como uma visão de mundo centrada no indivíduo. Os autores românticos retrataram o drama humano, os amores trágicos e ideais utópicos com elevada subjetividade e sensibilidade. O Romantismo valoriza as forças criativas do indivíduo e da imaginação popular.

    Historicamente, Bocage revolta-se contra a humilhação da dependência e contra o despotismo, forma de governo na qual uma única entidade governa com poder absoluto – o absolutismo régio, em que o rei centraliza todos os poderes: executivo, legislativo e judicial. Neste regime impera a falta de liberdade de expressão, de ação e de pensamento, sendo que todos os que infringem as normas aplicadas à circulação de ideias e de conhecimento são presos e severamente castigados.

    Bocage era um espírito livre, progressista, inconformista e autodidata que recusou favores palacianos, chegando a vender os seus poemas na rua. Escreveu até ao fim dos seus quarenta anos de vida: poemas de amor, fábulas, peças de teatro. Da sua autoria é também um primeiro manifesto feminista português, onde defendeu um casamento por amor e nunca por conveniência/interesse, o que, à época, não era nada habitual.

    Sempre envolvido em polémicas, cria várias poesias satíricas, e muitas das suas composições foram suprimidas pela censura. Outras, guardava-as ou circulavam clandestinamente. Tinha uma vida pouco comum, e pagou caro por isso: nem sempre tinha uma refeição certa, ao longo do dia.

    Se fosse hoje, Bocage usufruiria do artigo 3.º da Declaração Universal dos Direitos Humanos, de 10 de dezembro de 1948: “Todo o indivíduo tem direito à vida, à liberdade e à segurança pessoal”.

    O seu espírito foi visto pelos outros como boémio, rebelde e louco, e a pluralidade é uma marca da sua obra, visando objetivos diferentes: ridicularizar, escandalizar, exaltar, lamentar.

    Porém, e segundo o artigo 19.º da Declaração Universal dos Direitos Humanos, “Todo o indivíduo tem direito à liberdade de opinião e de expressão, o que implica o direito de não ser inquietado pelas suas opiniões e o de procurar, receber e difundir, sem consideração de fronteiras, informações e ideias por qualquer meio de expressão”. Contudo, Bocage viveu anteriormente à criação desta tão importante Declaração, pelo que não pôde usufruir da tão necessária liberdade.

    Foi preso várias vezes, uma das quais na prisão do Limoeiro, acusado de impiedade e antimonarquismo e de conspiração contra a segurança do Estado. Depois, mesmo inocentado desta acusação, foi considerado culpado por erros contra a fé, sendo transferido para a prisão no Mosteiro de São Bento, até se conformar com as convenções religiosas e morais da época e se retratar. Mas, ainda insubordinado, acaba por ser transferido para o Hospício das Necessidades, dirigido pela Congregação do Oratório. No cárcere, continua a escrever poesias e epístolas. Durante este longo período de detenção, trabalha como redator e tradutor de obras de Ovídio, Tasso, Racine, Voltaire e Virgílio. Só saiu em liberdade no último dia de 1798.

    De salientar que estes períodos de aprisionamento não reeducaram o poeta, apenas serviram para amenizar o seu comportamento agressivo. Talvez o artigo 18.º dos Direitos Humanos – “Toda a pessoa tem direito à liberdade de pensamento, de consciência e de religião; este direito implica a liberdade de mudar de religião ou de convicção, assim como a liberdade de manifestar a religião ou convicção, sozinho ou em comum, tanto em público como em privado, pelo ensino, pela prática, pelo culto e pelos ritos” – tenha sido criado para acabar com a penalização de pessoas que pensavam e experienciavam o mundo de um modo diferente da maioria.

    Nos seus versos é visível que, nesta altura, está mudado, ou, melhor, foi obrigado a mudar, como expressa num dos seus mais célebres sonetos:

    Já Bocage não sou!… À cova escura

    Meu estro vai parar desfeito em vento…

    Eu aos céus ultrajei! O meu tormento

                Leve me torne sempre a terra dura                                                                            

    De 1799 a 1801, trabalhou sobretudo com Fr. José Mariano da Conceição Veloso, um frade brasileiro, politicamente bem situado e nas boas graças de Pina Manique, intendente da Polícia que dominava então a cidade de Lisboa, que lhe deu muitos trabalhos para traduzir.

    Grande defensor da língua portuguesa, as suas reflexões são extremamente profundas e escreveu-as recorrendo às figuras de animais como veículos transmissores da sua mensagem.

    Assim, só com o 25 de Abril de 1974 foi possível publicar, às claras, um livro de poesia erótica da sua autoria.

    Um cronista inglês escreveu sobre Bocage ser a criatura mais extravagante, mais marginal que Deus criou. Figura irreverente que deu origem a inúmeras histórias.

    Nessa altura já a sua fama de versejador e de poeta corria por toda a cidade de Lisboa. E ao lado da sátira agressiva, foi desenvolvendo a sua veia lírica, retratando os seus sentimentos  numa linguagem emotiva que cativou os leitores da época. Os seus poemas de amor ficaram célebres e continuariam a ser lidos, tal como os de Luís de Camões e de Antero de Quental.

    Bocage foi considerado uma das figuras máximas da poesia portuguesa, tornando-se o poeta mais lido em Portugal.

     

    Falecimento e legado

    Faleceu a 21 de dezembro de 1805, aos 40 anos, com um aneurisma, e foi sepultado num jazigo subterrâneo da Igreja Paroquial de Nossa Senhora das Mercês, em Lisboa, uma vez que residia numa casa arrendada, desde 1802, na freguesia das Mercês. O dia do seu nascimento, 15 de setembro, é o feriado municipal de Setúbal. A Praça do Bocage, nesta cidade, homenageia o poeta com uma estátua sua, havendo também aqui um agrupamento de escolas com o seu nome.

     

    Propostas de estratégia de ação pedagógica

    Pesquisar figuras portuguesas de renome, ligadas à literatura, que foram presas e/ou perseguidas pela Inquisição.

    – Realizar uma exposição fotográfica com uma pequena nota biográfica em cada gravura. Seria interessante que esta exposição tivesse lugar no dia 3 de maio, data em que se comemora o Dia Mundial da Liberdade de Imprensa, uma vez que o Dia Mundial de Pensamento é comemorado a 3 de julho, momento em que as atividades letivas já terminaram.

    Este tema pode ser trabalhado em articulação com as disciplinas de História, Cidadania e Português.

     

    Bibliografia

    “Bocage, poeta português”, https://www.ebiografia.com/bocage/ (acedido a 09.10.2023).

    “Bocage, símbolo do Arcadismo”, https://ensina.rtp.pt/artigo/bocage-simbolo-do-arcadismo/ (acedido a09.10.2023).

    Declaração Universal dos Direitos Humanos, https://diariodarepublica.pt/dr/geral/legislacao-relevante/declaracao-universal-direitos-humanos (acedido a 10.10.2023).

     

    Autores

    Agrupamento de Escolas António Alves Amorim

    Professora: Maria Antónia de Sousa dos Santos Silva

    Ilustrações: Carolina Oliveira Duarte, Isaac Cramez Pereira

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