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    Florestania [Dicionário Global]

    A palavra “Florestania” é um neologismo criado no Brasil no começo dos anos 2000, no Estado do Acre, um dos nove estados que compõem a Amazônia Legal.

    Segundo Antonio Alves, jornalista e escritor acreano, a expressão “Florestania” busca um novo pacto social e natural, onde a humanidade chegará a um novo arranjo com a natureza, onde se percebe não como centro, mas sim parte integrante e dependente da natureza. Salienta que é preciso incorporar a “decisão da natureza” nos processos e projetos de sustentabilidade. Precisamos conhecer os processos naturais e ter um respeito reverente aos ecossistemas e populações tradicionais pelo seu valor intrínseco; se trata de um imperativo ético para a manutenção da vida no planeta.

    Afinal, os povos originários, em suas etnias, plantam e manejam a floresta há séculos. A floresta não é intocada.

    É uma unanimidade para os povos ancestrais que, no Ocidente, a ideia de educação começa com um erro fundamental: acreditar que ela é um assunto exclusivamente humano.

    Tika Matxuru Yawanawa (Aldeia Nova Esperança, professor) nos diz de uma maneira muito clara que tudo tem a capacidade educativa e que dentro da floresta não existe alguém que é o professor, porque são tantos, eles estão em tantas representações, que a experiência não fica exclusiva entre um ser humano e outro ser humano. Mas é uma experiência aberta, aprende-se com a árvore, o sonho, o vento, a chuva, os outros animais.

    Tudo nesse território tem pessoalidade, tudo ali é uma pessoa. Quer dizer, tudo é gente.

    Ele se diz muito chocado com o nosso contexto urbano, onde os rios estão tapados por lajes de cimento, modificados em esgotos, anulados como entidades e apropriados como “comodities”.

    Denuncia nossa cegueira, ao não perceber que enquanto ele vê o caminho, é visto pelo caminho, enquanto ele vê o rio, é visto pelo rio.

    O rio está dando sentido para a existência daquele corpo que estava andando ali, é um corpo-território, é um corpo vivo.

    Na marcha das mulheres indígenas em Brasília, em 2019, Célia Xakriabá, professora, ativista e deputada, puxou o lema: “Território: nosso corpo, nosso espírito”.

    Se o nosso corpo é nosso território, então a língua do território, a linguagem do território, a fala do território, devia nos guiar para uma transformação. Transformação essa que significa REFLORESTAR MENTES.

    Efrén Giraldo, escritor e crítico colombiano, em seu livro Sumário de Plantas Oficiosas: Um Ensaio sobre a Memória da Flora, faz coro, ao ressaltar que a flora é memória, Arte, peregrinação e cura. Como refere, “Falta reconhecer que as plantas não são ‘só uteis’ do ponto de vista ambiental, mas também podem nos dar um modelo de comportamento”. E sublinha: “não reconhecemos a sua capacidade comunicativa e de pensamento, onde poderíamos aprender outras maneiras de viver” (GIRALDO, 2024)

    As novas ciências, a Astrofísica e a Cosmologia, nos asseguram que o universo não resulta da soma de todos os seres existentes e por existir, como se estivessem justapostos uns aos outros. Todos eles se encontram, inter-retro-conectados. O universo é um conjunto articulado de tudo em todos os pontos e momentos. Todos os seres não são apenas portadores de massa e energia, mas também de informação trocada, retrabalhada e estocada de um jeito singular e próprio a cada um.

    Nesses fatores, relação e interdependência de todos com todos, o Papa Francisco, em sua encíclica Laudato Si’, em 2015, repetidas vezes enfatizou: “nenhuma criatura basta a si mesma… tudo está interligado, tudo está relacionado”.

    No Brasil, a ARTE tem sido uma importante ferramenta de REFLORESTAR MENTES.

    Ressalto o trabalho do grande escultor e ativista polonês-brasileiro Frans Kracjberg, que através de seu “Manifesto do Naturalismo Integral ou Manifesto do Rio Negro”, expressão da consciência planetária, elucida e conceitua sua obra. A natureza passa a ser vista como a medida da consciência e da sensibilidade, um regresso ao idealismo necessário à sobrevivência do homem.

    Nesse sentido, cartas como a Declaração Universal dos Direitos Humanos e a Declaração dos Direitos de Pachamama-Mãe Terra dialogam em fina sintonia.

    Floresta e ser humano vivem um pacto socioecológico, onde o ser humano se entende parte da floresta e a floresta passa a ser um novo cidadão, respeitado em sua integridade, biodiversidade, estabilidade e luxuriante beleza, junto com outros cidadãos humanos.

    Segundo Leonardo Boff, teólogo e escritor, ambos são beneficiados – povo e floresta –, pois abandona-se a lógica antropocêntrica e utilitarista da exploração e se assume a lógica ecocêntrica da mutualidade, que implica respeito mútuo e sinergia.

    Nessa visão, mais e mais sustentada pelas modernas Biologia e Cosmologia, a floresta como floresta, a natureza, bem como a Terra, são vistas como sujeitos e como cidadãos e, como tais, titulares de direitos (o que já entrou nas Constituições do Equador e da Bolívia).

    O que significa ampliar a personalidade jurídica à floresta, aos ecossistemas e à Terra como Gaya.

    Ela seria aquela realidade cidadã que cria condições para todos os outros tipos de seres, com seu valor intrínseco e sujeito de cidadania.

    Segundo nosso Papa Francisco (2015): “assim como as Mães Humanas, Mãe Terra é aquela dotada de inigualável função material e espiritual, de prover e manter a teia da vida, oferecendo território para caminhar, alimento para nutrir, energia mantenedora das relações e conexões que encadeiam a teia da vida de maneira naturalmente harmônica entre o caos e a ordem, entre o viver e o morrer, que transmuta e faz o Céu permanecer em pé gerando e regenerando”.

    S. Francisco, precursor da Ecologia, soube se escutar floresta ao se despir de todas as “nossas tralhas”, como diz Ailton Krenak (pensador, escritor e ativista). Ele fez o caminho de volta para casa, ele voltou para a casa da Mãe Terra, e a traduziu poeticamente para nós.

    Devastada Gaia, não há mais base para nenhum tipo de cidadania e de direitos pessoais, sociais e naturais. Se quisermos sobreviver juntos, a democracia tem que ser também biocracia e cosmocracia, numa palavra – uma democracia socioecológica.

    Em meu filme e de Miguel Przewodowski – Amazônia, O Despertar da Florestania (2018) –, tentamos dar voz tanto à Ciência quanto à própria Floresta e seus milenares guardiões, como Ailton Krenak e Davi Kopenawa (escritor, xamã, líder yanomami).

    Segundo o Professor Virgílio Viana, a Florestania é uma utopia que vem se realizando às margens do Rio Negro e, nas palavras do próprio chanceler D. Marcelo Sorondo, “o Tumbira e Santa Helena do Inglês (projetos da Fundação Amazônia Sustentável) são o melhor exemplo da Laudato Sí”.

    E fazemos coro com Leonardo Boff, ao dizer que, se a Florestania for assumida num sentido amplo, enquanto cidadania na floresta e da floresta, assistiremos algo inédito no mundo: na região de maior biodiversidade do planeta, na Floresta Amazônica, se inaugurará um novo ensaio civilizatório.

    Bibliografia

    GIRALDO, E. (2024). Sumário de Plantas Oficiosas: Um Ensaio sobre a Memória da Flora. Trad. S. M. Felix. São Paulo: Fósforo.

    PAPA FRANCISCO. (2015). Laudato Si’ (acedido a 08.04.2024).

    PONTES, A. L. de M. et al. (2022). Vozes Indígenas na Saúde: Trajetórias, Memórias e Protagonismo. Belo Horizonte/Rio de Janeiro: Editora Fiocruz/PISEAGRAMA.

    TORLONI, C. & PRZEWODOWSKI, M. (dir.) (2018). Amazônia, O Despertar da Florestania. Christal Produções – Globo Filmes/Canal Brasil.

    Autora: Christiane Torloni

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